Adoçante faz mal mesmo? Nas doses comuns, os aprovados pela ANVISA são considerados seguros. Mas em 2023 a OMS desaconselhou usá-los para emagrecer, por falta de resultado a longo prazo. Entenda a diferença sem alarmismo.
Você troca o açúcar do café pelo adoçante achando que está fazendo um favor à balança, e no fundo fica aquela pulga atrás da orelha: será que isso faz mal? A resposta honesta é que depende do que você espera dele. Como segurança, os adoçantes aprovados no Brasil passam por avaliação e têm limite de consumo definido. Como estratégia para emagrecer, a história ficou bem menos animadora depois de 2023.
Adoçante é o nome popular do que a legislação chama de edulcorante: uma substância que dá sabor doce sem (ou quase sem) as calorias do açúcar. Alguns são sintéticos, como aspartame, sacarina, sucralose e ciclamato. Outros vêm de planta ou fermentação, caso da estévia e dos polióis como xilitol e eritritol. No supermercado eles aparecem sozinhos, na tampinha de plástico, e escondidos em refrigerante zero, iogurte "sem açúcar", gelatina diet e um monte de proteína em pó.
No Brasil, quem libera e fiscaliza cada um deles é a ANVISA. A agência só autoriza um edulcorante depois de avaliar sua segurança, e trabalha com um número chamado IDA, a Ingestão Diária Aceitável. A IDA é a quantidade que uma pessoa poderia consumir todo dia, pela vida inteira, sem risco esperado à saúde. Esse valor não sai da cabeça de ninguém: quem calcula é o JECFA, o comitê de especialistas ligado à FAO e à OMS. Ou seja, o "adoçante faz mal" da conversa de cozinha esbarra num ponto técnico: nas doses de uso comum, os aprovados são considerados seguros para a média da população.
Aqui mora a virada. Em maio de 2023 a OMS publicou uma diretriz desaconselhando o uso de adoçantes sem açúcar para controle de peso ou para prevenir doenças crônicas como diabetes tipo 2 e problemas do coração. O motivo não foi um susto com veneno. Foi falta de resultado.
Ao revisar os estudos, a OMS concluiu que não há evidência de que o uso prolongado desses adoçantes reduza a gordura corporal em adultos ou crianças de forma consistente. Trocar o açúcar pelo adoçante corta calorias no copo, sim, mas no longo prazo isso não vem se traduzindo em menos peso na balança para a maioria das pessoas. A revisão ainda levantou a possibilidade de efeitos indesejados no uso prolongado, incluindo maior risco de diabetes tipo 2 e doença cardiovascular em adultos.
Vale um detalhe que costuma se perder na manchete: a própria OMS classificou essa recomendação como condicional. Em linguagem técnica, isso significa que a certeza da evidência ainda é limitada e que a orientação pode mudar conforme surgirem novos dados. Não é uma proibição, é um "pelo que sabemos até agora, não conte com o adoçante para emagrecer".
Em julho de 2023 o aspartame virou notícia por outro motivo. A IARC, a agência de câncer da OMS, classificou a substância como "possivelmente cancerígena para humanos", o grupo 2B, com base em evidência limitada para um tipo de câncer de fígado. Parece assustador até você entender o que esse grupo significa e ler a outra metade da notícia.
No mesmo pacote, o JECFA reavaliou o aspartame e manteve a IDA de 40 mg por quilo de peso corporal. Para colocar em números do dia a dia: um adulto de 70 quilos precisaria tomar bem mais de nove latas de refrigerante diet por dia, todos os dias, para passar desse limite, contando só o aspartame da bebida. A IARC responde à pergunta "essa substância pode, em tese, causar câncer?". O JECFA responde "no consumo real das pessoas, existe risco?". As duas respostas convivem, e por isso a IDA não foi reduzida.
Adoçante não é vilão nem solução. Faz sentido como ponte para quem está saindo de um consumo alto de açúcar, especialmente quem convive com diabetes e precisa de sabor doce sem elevar a glicose. O problema aparece quando ele vira desculpa: a sobremesa "zero" que autoriza a segunda fatia, o refrigerante diet que acompanha um prato que já estava calórico. O paladar segue treinado para o doce, e a fome de doce não passa.
Algumas balizas que costumam ajudar:
No fim, adoçante não emagrece sozinho e, nas doses comuns, não é o terror que o boca a boca pinta. Ele é uma ferramenta com uso estreito. Se a sua relação com o doce anda pesada ou você tem diabetes, condição cardíaca ou está grávida, quem deve montar essa conta com você é um nutricionista ou médico, olhando o seu caso, e não um texto de blog.